Criação do mundo. Adão e Eva desobedecem à ordem de Deus.


No princípio, Deus criou o céu e a Terra, mas a Terra não era visível porque estava coberta de trevas espessas, e o Espírito de Deus adejava por cima dela. Deus ordenou em seguida que se fizesse a luz, e a luz apareceu imediatamen­te. Depois de ter considerado essa massa, Deus separou a luz das trevas. Às trevas chamou noite, e à luz, dia, dando ao começo do dia o nome de manhã, e ao fim, o de tarde. Foi ao primeiro dia que Moisés chamou "um dia", e não "o primeiro dia", por razões que eu poderia explicar, mas, como prometi escrever sobre todas essas coisas em um trabalho especial, reservo-me para falar disso nele.

No segundo dia, Deus criou o céu, separou-o de todo o resto e colocou-o por cima, como sendo o mais nobre. Rodeou-o de cristal e temperou-o com umida­de própria para formar as chuvas que regam docemente a terra, para torná-la fecunda. No terceiro dia, tornou fixa a terra, rodeou-a pelo mar e fê-la produzir as plantas com as suas respectivas sementes. No quarto dia, criou o Sol, a Lua e os outros astros e colocou-os no céu para lhe serem o ornamento principal. Re­gulou de tal maneira os seus movimentos e o seu curso que eles determinam claramente as estações e as revoluções do ano. No quinto dia, criou os peixes que nadam na água e os pássaros que voam no ar e quis que formassem casais, a fim de crescerem e se multiplicarem, cada um segundo a sua espécie. No sexto dia, criou os animais terrestres e distinguiu-os em sexos diversos, fazendo-os macho e fêmea. E, nesse mesmo dia, criou também o homem. Assim, segundo o que refere Moisés, Deus criou em seis dias o mundo e todas as coisas que nele existem. No sétimo dia, Ele descansou e deixou de trabalhar as grandes obras da criação do mundo: é por esse motivo que não trabalhamos nesse dia e lhe damos o nome de sábado, que em nossa língua quer dizer "descanso".

 Moisés fala ainda mais particularmente da criação do homem. Ele diz que Deus tomou pó da terra, fez o homem e, com a alma, inspirou nele o espírito e a vida. Ele acrescenta que esse homem foi chamado Adão, que em hebreu significa "ruivo", porque a terra de que ele foi formado era dessa cor, que é a cor da terra natural e a qual se pode chamar virgem.

Deus mandou vir os animais, tanto os machos quanto as fêmeas, para dian­te de Adão, e este, o primeiro de todos os homens, deu-lhes os nomes que conservam ainda hoje.

Deus, vendo que Adão estava sozinho, enquanto os outros animais ti­nham cada qual uma companheira, quis também dar-lhe uma consorte. Para isso, quando ele estava adormecido, tirou-lhe uma das costelas, da qual for­mou a mulher. E, logo que Adão a viu, percebeu que ela havia sido tirada dele e que era parte dele mesmo. Os hebreus dão à mulher o nome de Issa, e a que foi a primeira de todas chamou-se Eva, isto é, "mãe de todos os viventes".

Moisés narra em seguida como Deus plantou do lado do oriente um delicioso jardim, que cumulou de todas as espécies de plantas, entre elas, duas árvores, uma das quais era a árvore da vida, e a outra, a da ciência, que ensinava a discernir o bem do mal. Ele colocou Adão e Eva nesse jardim e mandou que cultivassem as plantas. O jardim era regado por um grande rio, que o rodeava completamente e se dividia em quatro outros rios. O primeiro desses rios, chamado Pisom, que significa "plenitude" e ao qual os gregos chamam Canges, corre para a índia e desemboca no mar. O segundo, que se chama Eufrates e Fora, em nossa língua, significa "dispersão" ou "flor", e o terceiro, a que chamam Tigre ou Diglath, que significa "estreito e rápido", ambos desembocam no mar Vermelho. O quarto, de nome Giom, que significa "que vem do oriente", é chamado Nilo pelos gregos e atravessa todo o Egito.

Deus ordenou a Adão e Eva que comessem de todos os frutos, mas lhes proibiu de tocar no da ciência, alertando-os de que morreriam se o comessem. Havia então perfeita harmonia entre todos os animais, e a serpente estava muito acostumada com Adão e Eva. Mas como a sua malícia a fizesse invejar a felicidade de que ambos desfrutariam se observassem a ordem de Deus e julgasse ela que, ao contrário, eles seriam vítimas de todas as desgraças se desobedecessem, tratou de persuadir Eva a comer do fruto proibido. Para melhor induzi-la, disse-lhe que o fruto continha uma virtude secreta, que dava o conhecimento do bem e do mal, e que se ela e o marido comessem dele, seriam tão felizes quanto Deus. Assim, a serpente enganou a mu­lher, e esta desprezou a ordem divina: comeu o fruto, alegrou-se por tê-lo feito e induziu Adão a comê-lo também. Ora, como era verdade que o fruto dava grandíssimo discernimento, eles logo perceberam que estavam nus e sentiram vergonha. Então tomaram folhas de figueira para se cobrir, julgando-se mais felizes do que antes, porque agora conheciam o que até ali haviam ignorado.

Deus entrou no jardim, e Adão, que antes do pecado conversava familiar­mente com Ele, não ousou apresentar-se, por causa da falta que havia cometi­do. Deus perguntou-lhe por que, em vez de sentir prazer em se aproximar dEle, estava fugindo e se escondendo. Como Adão não soubesse o que respon­der, porque se sentia culpado, Deus lhe disse: "Eu vos havia provido de tudo o que poderíeis desejar para viver sem penas e com prazer uma vida isenta de qualquer cuidado, que teria sido ao mesmo tempo muito longa e feliz. Mas vós vos opusestes ao meu desígnio, desprezastes a minha ordem e não é por res­peito que vos calais, mas porque a vossa consciência vos acusa". Adão, então, fez o que podia para se desculpar, pediu a Deus que lhe perdoasse e lançou a sua falta sobre a mulher, que o enganara e fora a causa de seu pecado. Ela, por sua vez, alegou que a serpente a havia enganado. Por isso Deus, para castigar Adão por assim se ter deixado vencer, declarou que a terra não produziria mais frutos, a não ser para aqueles que a cultivassem com o suor do rosto, e mesmo assim não daria tudo o que dela se poderia desejar. Castigou também Eva, estabelecendo que, por se haver deixado enganar pela serpente e atraído to­dos aqueles males sobre o marido, ela teria filhos com dor e sofrimento. E, para castigar a serpente pela sua malícia, condenou-a a rastejar pela terra, declaran­do que ela seria inimiga do homem. Depois que Deus impôs a todos o devido castigo, expulsou Adão e Eva daquele jardim de delícias.

por Flávio Josefo – História dos Hebreus

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