Os mártires do Coliseu – cristãos


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Tais eram as sangrentas e cruéis distrações oferecidas aos romanos, de tempos em tempos. Esta espécie de esporte desumano teve um reinado de mais de mil anos, e remonta à mais distante antigüidade. Bem antes do alvorecer do cristianismo, e antes que fosse lançada a pedra de fundação do imenso Coliseu, os poetas faziam deles o tema de seus versos, e os oradores coloriam suas efusões com descrições desses com­bates sanguinários; os afrescos sobre as paredes eram cenas de derrama­mento de sangue, e as sombrias esculturas de mármore mostravam os seus horrores. As duas maiores ruínas remanescentes da Roma antiga são os monumentos do seu paganismo e da sua crueldade.

A magnificência e o esplendor do Panteão e do Coliseu formam um terrível contraste com as cenas que se passaram dentro deles. Quando levantamos o véu que o tempo estendeu sobre o passado, e contemplamos os romanos em sua prosperidade, seu poder e magnificência, ficamos horrorizados e surpre­sos diante dos escuros e lúgubres registros de tirania e crueldade, que mancham cada página de sua história. O povo que se deleitava com aquelas cenas de carnificina eram homens como nós; naquele tempo, como agora, o coração era capaz de sentimentos nobres.

Havia no Coliseu, testemunhando os jogos cruéis, senadores que podiam sentar-se com honra no parlamento britânico; poetas que retornavam ao lar após os jogos, e escreviam, em tabuinhas perfumadas, relatos emocionantes daquelas cenas, com a mesma mão que aplaudira um assassinato. Havia pais de família, que bradavam clamorosamente para que o gladiador ferido fosse acometido novamente, e o seu corpo moribundo, cortado em pedaços pelo oponente triunfante, e que à tarde, ninavam os filhos com toda a ternura do amor paternal. E havia a terna e amorosa natureza feminina, arruinada pela visão e pela sede de sangue; a nobre senhora e a jovem vestal, vestidas de branco e coroada de flores, tornavam-se furiosas no teatro, e viravam para baixo o polegar adornado de jóias, pedindo o assassinato de uma vítima caída; contudo, uma tinha o sentimento enobrecedor de esposa, mãe, e amiga, e a outra pretendia cultivar a virtude cristã da castidade.

Ai! Vemos nisto a natureza humana sem o cristianismo. Elas eram as vítimas do paganismo, essa terrível escravidão, que manteve cativa as nações, até que viesse o Libertador da humani­dade. Podemos facilmente traçar um elo de união entre a impiedade e a crueldade do passado pagão, com as suas cenas desumanas, capazes de partir o coração, e as nações infiéis que ainda se acham sepultadas na escuridão da sombra da morte. Em nossa imaginação podem passar as cenas dos massacres sangrentos do Coliseu, a matança inclemente de mulheres, crianças e cativos indefesos, que clamavam por misericórdia enquanto soava a música do triunfo romano, bem como o costume inumano dessas nações que expõem seus infantes às margens das torrentes nas montanhas, destroem seus velhos, e jogam vítimas vivas sob as rodas dos carros triunfantes de seus ídolos, ou podemos pensar nos acampamentos dos bárbaros de Daomé, sentados em brutal alegria à roda de uma fogueira, devorando uma refeição de carne humana.

Mas uma nova era despontou sobre a terra. A luz desta crença que a Roma paga empe­nhou-se por esmagar no Coliseu, enxergamos a solução para o terrível enigma da vida. Eles nada conheciam da sublime moralidade daquEle que disse: "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros". A nuvem escura da culpa primeva pairou sobre o mundo por quatro mil anos, e o paganismo, a idolatria, e todo o seu absurdo concomitante, foram o resultado desse primeiro pecado. Mas quando chegou o tempo deter­minado por Deus para a regeneração do homem, o novo estado de coisas não rompeu no mundo como a brilhante descarga de uma nuvem. Aprouve ao Deus Todo-poderoso que o seu reino abrisse o próprio caminho e conquistasse a própria dinastia. Ele enviou na frente os seus apóstolos para que subjugassem o mundo com as armas invisíveis da fé. Eles o atacaram e o conquistaram. Quatro séculos de batalha enfurecida; o paganismo nada tinha para enfrentar o poder invisível dos apóstolos desarmados, a não ser a sua crueldade e os seus horrores. E os poderes das trevas tremeram diante da força indestrutível dos seguidores de Cristo. Não obstante, muitas vítimas tiveram de tombar antes que a vitória fosse ganha, e rios de sangue, mais nobre que o daqueles brutos e gladiadores, tingiram a areia do Coliseu.

Outra espécie de diversão deve ser acrescentada àquelas já enumeradas no capítulo anterior. Cerca de oitocentos anos após a construção de Roma, apareceu uma nova estirpe de seres, que ofereceu à crueldade e à depravação daquele povo um novo deleite. Eram homens que não procuravam armas para lutar, nem demonstravam medo de morrer.

Depois de testemunhar os corajosos combates dos gladiadores armados, lutando loucamente suas vidas, admirar a força e a agilidade dos caçadores, ridicularizar o aspecto deplorável e trêmulo dos miseráveis indefesos, expostos à morte sem ao menos uma chance de se defender, era estranha e inusual a visão daqueles homens entrando na arena com passo destemido e semblante jovial, olhos erguidos ao céu, onde pareciam contemplar uma cena brilhante de glória, e brava e intrepidamente, anunciar a religião do Deus crucificado. Eram homens que pertenciam à detestável seita que viera da Judéia. Eram os desprezadores dos deuses do Império. Eram os cristãos.

Não eram os cativos desamparados da Trácia ou da Gália, nem os pobres escravos, cujas vidas eram propriedade de seus senhores, mas pessoas dentre as mais nobres famílias do Estado e algumas delas, membros da própria casa imperial. Em vez do corpo robusto e musculoso do ousado gladiador, é a terna virgem que, à flor da mocidade, enfrenta agora a fúria do leão. Triunfos de outra espécie surpreenderão as arquibancadas abarrotadas, e os mais selvagens animais, da floresta e do deserto, curvar-se-ão aos pés dos mártires de Cristo.

Por A. J. O’Reilly

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Teologia e Reino de Deus
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