O que é um intercessor?


A verdade central, que aos poucos o Espírito Santo re­velou ao Sr. Howells, a principal fonte de todo o mi­nistério de sua vida, foi a intercessão. E possível obser­var o Espírito guiando-o para isso em todas as relações com ele, desde a Convenção de Llandrindod, quando tomou posse ple­na desse servo do Senhor, até que, em sua lida com a mulher tuberculosa, o significado da intercessão tornou-se totalmente claro. Daí em diante, o Espírito Santo o guiava sempre, tanto para conquistar novas posições como intercessor quanto para revelar, a outros capazes de suportá-las, as preciosas verdades que aprendera. Seria útil, portanto, parar por um momento e examinar com um pouco mais de cuidado o que significa ser um intercessor.

Que Deus busca intercessores, mas raramente os encontra, fica claro em sua exclamação de dor, por intermédio de Isaías: "Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não hou­vesse um intercessor" (Is 59.16). Vemos o mesmo em seu protes­to de desapontamento por meio de Ezequiel: "Busquei entre eles um homem que tapasse o muro e se colocasse na brecha perante mim, a favor desta terra… mas a ninguém achei" (Ez 22.30).

Talvez os crentes, de modo geral, considerem a intercessão apenas uma forma de oração mais ou menos intensificada. E, apesar da grande ênfase sobre a palavra "intensificada", há, no entanto, três coisas que devem ser vistas num intercessor, as quais não se encontram necessariamente na oração comum: identificação, agonia e autoridade.

A identificação do intercessor com aqueles pelos quais ele intercede é vista perfeitamente no Salvador. Sabemos que ele derramou sua alma até à morte: Ele foi contado com os trans­gressores, carregou o pecado de todos nós e intercedeu pelos trans­gressores. Como Intercessor Divino, que intercedia por um mundo perdido, ele sorveu o cálice da nossa condição perdida até à última gota. Ele provou a morte por todos os homens. Para fazer isso, no sentido mais pleno possível, ele se sentou onde nos sentamos. Ao tomar nossa natureza sobre si mesmo; ao apren­der a obediência mediante as coisas que ele sofreu; ao ser ten­tado em todos os pontos como somos; ao tornar-se pobre por nossa causa; e, finalmente, ao ser feito pecado por nós, o Salva­dor conquistou essa posição com a mais completa autoridade. Isso porque foi o capitão da nossa salvação, a qual se fez perfei­ta mediante seu sofrimento. Assim, essa é a mais plena com­preensão de tudo o que suportamos. Ele pode fazer intercessão por nós para sempre e, por súplicas efetivas junto ao Pai, "pode salvar totalmente os que se chegam a Deus por ele". A identifi­cação é, portanto, a primeira lei do intercessor. Ele suplica efe­tivamente, porque deu sua vida por aqueles por quem suplica. Assim, ele é o autêntico representante daqueles por quem su­plica, pois submergiu seu interesse próprio nas necessidades e nos sofrimentos deles, além de, tanto quanto possível, literal­mente, toma-lhes o lugar.

Há um outro Intercessor, e nele vemos a agonia desse mi­nistério, pois ele, o Espírito Santo, "intercede por nós sobrema­neira, com gemidos inexprimíveis". Esse Intercessor, o único presente na Terra, o qual não possui corações sobre os quais possa lançar sua carga, nem corpos mediante os quais possa so­frer e trabalhar, a não ser os corações e os corpos daqueles que são o lugar de sua habitação. Por meio deles, ele realiza sua obra de intercessão na Terra, e esses que se dispõem a ser habi­tação para o Espírito Santo se tornam os intercessores, porque o Espírito habita neles. Ele os chama para a vida verdadeira, o mesmo tipo de vida, só que em menor grau, que o próprio

Sal­vador viveu aqui.

No entanto, antes que o Espírito possa levar um vaso esco­lhido a essa vida de intercessão, ele tem de ir ao âmago e lidar com tudo o que é natural. O amor ao dinheiro, a ambição pessoal, o afeto natural pelos pais e pelos amados, os apetites do corpo, o amor à própria vida, tudo o que leva um indivíduo, até mes­mo um convertido, a viver para si mesmo, para seu próprio con­forto ou vantagem, para seu próprio progresso, até mesmo para seu próprio círculo de amigos, tem de ir para a cruz. Não é uma morte teórica, mas uma crucificação real em Cristo, algo que somente o próprio Espírito Santo pode tornar real na experiên­cia de seu servo. Tanto como uma crise quanto como um pro­cesso, o testemunho de Paulo deve tornar-se nosso: "Estive e ainda estou crucificado com Cristo". O ego deve ser libertado de si próprio para tornar-se agente do Espírito Santo.

A medida que a crucificação prossegue, a intercessão come­ça – quer pela carga interior, quer pelo chamado à obediência exterior. Assim, o Espírito começa a viver sua própria vida de amor e de sacrifício por um mundo perdido por intermédio de seu canal purificado. Vemos isso na vida de Rees Howells. Po­demos também observar a expressão máxima disso nas Escritu­ras. Veja o caso de Moisés, o jovem intercessor, que deixou o palácio por livre iniciativa para se identificar com seus irmãos escravos, assim como quando os acompanhou "por todo aquele grande e terrível deserto" (Dt 1.19). É possível observar a in­tercessão atingir seu máximo quando a ira de Deus caiu sobre eles em razão de sua idolatria, pois a destruição deles era imi­nente. Nesse momento, Moisés, como intercessor, não oferece seu corpo por eles, mas sua alma imortal: "Agora, pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peço-te, do livro que escreveste" (Êx 32.32); e, na realidade, ele chamou isso de "fazer propiciação" por eles.

Observe o apóstolo Paulo, o maior homem da nova dispensação, como Moisés fora da antiga. Seu corpo, por muitos anos, mediante o Espírito Santo, foi um sacrifício vivo, para que os gentios pudessem ter o evangelho. Por fim, sua alma imortal é oferecida sobre o altar. Aquele mesmo homem que se regozijava em sua carta aos romanos, porque nada poderia separá-los do amor de Deus (Rm 8), diz, momentos mais tarde, que o Espírito dá testemunho com ele, de que ele mesmo desejaria ser "anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatrio­tas, segundo a carne" (Rm 9.3).

Esses são exemplos do intercessor em ação. Quando o Espí­rito Santo realmente vive sua vida num vaso escolhido, não há limites aos extremos aos quais ele o leva, em sua paixão por advertir e por salvar os perdidos. Isaías, aquele aristocrata, teve de andar três anos "despido e descalço" (Is 20.3) como uma advertência a Israel. Dificilmente podemos dar crédito a tal coisa! Oséias teve de casar-se com uma prostituta, para mostrar a seu povo que o Esposo celestial estava disposto a aceitar de volta sua esposa adúltera. Jeremias não teve permissão para se casar, como uma advertência a Israel contra os terrores e as tra­gédias do cativeiro. Ezequiel não pôde verter uma lágrima se­quer pela morte de sua esposa, a delícia dos seus olhos. E as­sim, essa lista poderia prosseguir. Cada instrumento de Deus, que foi usado de modo grandioso, foi de algum modo, um intercessor: Wesley pela Inglaterra apóstata; Booth pelos de­samparados; Hudson Taylor pela China; C. T. Studd pelo mun­do não evangelizado.

A intercessão, no entanto, é mais do que o Espírito parti­lhando seus gemidos conosco e vivendo sua vida de sacrifício pelo mundo por nosso intermédio. É o Espírito alcançando seus fins de graça abundante. Se o intercessor conhece a identifica­ção e a agonia, ele também conhece a autoridade. É a lei do grão de trigo e da colheita: se ele morrer, produz muito fruto.

A intercessão não cobre o pecado. O único que cobre os pe­cados do mundo inteiro é Jesus, o Filho de Deus. A interces­são, no entanto, identifica o intercessor de tal modo com o so­fredor, que ela lhe dá um lugar preponderante diante de Deus. O intercessor move Deus. Ele leva Deus a mudar de opinião.

Ele atinge seu objetivo, ou melhor, o Espírito atinge esse obje­tivo por intermédio dele. Desse modo, Moisés, por meio da intercessão, tornou-se o salvador de Israel e impediu sua des­truição. Assim também, resta-nos pouca dúvida de que o su­premo ato de intercessão de Paulo pelo povo escolhido de Deus permitiu que lhe fosse concedido uma grande revelação – a evangelização de amplitude mundial e a salvação final de Israel (Rm 10,11), além de possibilitar que Deus a. efetuasse.

O Sr. Howells falara, muitas vezes, a respeito da "posição de intercessão conquistada", e a verdade desse fato ficou eviden­ciada em muitas circunstâncias de sua vida. É um fato referen­te à experiência. O preço é pago, a obediência é cumprida, as lutas e os gemidos interiores seguem seu pleno curso, e então a palavra do Senhor vem. O frágil canal é revestido de autoridade pelo Espírito Santo e pode dizer a palavra de libertação. Obras maiores são realizadas. Não somente isso, mas uma nova posi­ção em graça é conquistada e mantida, embora essa graça só possa ser apropriada e utilizada em cada caso sob a orientação direta do Espírito.

O Sr. Howells costumava referir-se a ela, conforme o relato do Sr. Muller, como entrar na "graça da fé", para contrastar com o receber "os dons da fé". O que ele queria dizer era que, quan­do oramos de uma maneira normal, podemos esperar que Deus, por sua bondade, nos conceda o que pedimos. Se o Senhor nos atende, regozijamo-nos, pois essa é sua dádiva a nós. Entretan­to não temos poder ou autoridade para dizer que sempre pode­mos obter a mesma resposta em toda ocasião. Esses são os dons da fé. Contudo, quando um intercessor conquista o lugar de intercessão num determinado campo, então ele entra "na graça da fé". Assim, paralelamente a essa linha especial, o mar insondável da graça de Deus está aberto a ele. Esse é o lugar de intercessão conquistado.

O Sr. Howells referia-se à experiência de George Muller. O Sr. Muller nunca conquistara um lugar de intercessão por enfermidade, mas, numa ocasião, Deus restabeleceu uma pes­soa enferma por quem ele orara. Em uma outra ocasião, ele orou por outra pessoa enferma, porém não houve cura. Toda-via, o Sr. Muller disse que aquele não fora um fracasso da ora­ção, porque nunca conquistara um lugar de intercessão por enfermos e, portanto, a resposta à primeira oração foi mera­mente "um dom da fé", o qual, necessariamente, não se repe­tiria. Por outro lado, ele ganhara um lugar de intercessão por órfãos. Ele sempre estava pronto a ser o primeiro sofredor a favor deles. Assim, se houvesse alimento suficiente para to­dos, exceto um, esse um seria ele. E, nesse domínio referente ao suprimento, Deus o fez responsável para que todas as ne­cessidades sempre fossem satisfeitas, pois as portas do Tesou­ro de Deus estiveram permanentemente abertas a ele e, des­se modo, ele poderia tomar tanto quanto necessitasse.

O Pastor Blumhardt, da Alemanha, foi, todavia, um homem que conquistou um lugar de intercessão por doentes. Em suas primeiras lutas com os espíritos maus, ele ficou mais de dezoito meses em oração e jejum antes de conquistar a vitória final. As queixas se acumulavam contra ele, pois negligenciara seu tra­balho como ministro e devotara-se à cura dos enfermos. Entre­tanto ele disse que o Senhor lhe dera a parábola do amigo à meia-noite e dos três pães e, embora indigno, ele continuava batendo. Assim, orou sem interrupção e Deus abriu a porta. Não apenas centenas de pessoas foram abençoadas, mas ele estabeleceu um padrão para a igreja. Após a vitória final, ele conquistou um acesso tão fácil ao Trono que, muitas vezes, quando as cartas que recebia pediam oração por pessoas enfer­mas, depois de examiná-las por um simples momento, já podia descobrir se a vontade de Deus era para a cura ou não. Os sofri­mentos alheios se tornaram muito penosos para ele, pois supli­cava por eles como se fosse para si próprio. Isso era intercessão.

 

Por Norman Grubb

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Teologia e Reino de Deus
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