O evangelho da graça e o mundo da graça.


(Mateus 11:4-6) – E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes:  Os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim.

Muitos anos antes de sua morte, um notável rabino, Abraham Joshua Heschel, sofreu um ataque do coração quase fatal. Seu melhor amigo estava ao lado de seu leito. Heschel estava tão fraco que só conseguiu sussurrar:

— Sam, sou grato pela minha vida, por todos os momentos que vivi. Estou pronto para partir. Vi tantos milagres na minha vida.

O velho rabino ficou esgotado pelo seu esforço em falar. Depois de uma longa pausa ele disse:

— Sam, nunca na minha vida pedi a Deus sucesso, sabedoria, poder ou fama. Pedi assombro (vide Nota), e ele me concedeu.

Pedi assombro, e ele me concedeu. Um burguês sem imaginação irá cutucar o nariz diante de uma pintura de Claude Monet; uma pessoa cheia de assombro ficará ali em pé tentando segurar as lágrimas.

De modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos. Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris ou do perfume de uma rosa, como acontecia antes. Ficamos maiores e todo o resto ficou menor, menos impressionante. Tornamo-nos apáticos, sofisticados e cheios da sabedoria do mundo. Não deslizamos mais os dedos sobre a água, não gritamos mais para as estrelas nem fazemos caretas para a lua. Água é H2O, as estrelas foram classificadas e a lua não é feita de queijo. Graças à televisão via satélite e aos aviões a jato, podemos visitar lugares que no passado eram acessíveis apenas por Colombo, Balboa e outros exploradores intrépidos.

Houve um tempo, não muito distante, em que uma tempestade fazia um homem adulto estremecer e sentir-se pequeno. Deus, no entanto, está sendo deixado de lado pelo mundo da ciência. Quanto mais sabemos sobre meteorologia menos inclinados nos tornamos a orar durante uma tempestade. Os aviões voam agora acima, abaixo e entre elas. Os satélites reduzem-nas a fotografias. Que ignomínia — se é que uma tempestade pode experimentar a ignomínia — reduzida de teofania a mero incômodo.

Heschel diz que hoje cremos que todos os mistérios podem ser resolvidos, e que todo o assombro não passa do "efeito que o novo imprime sobre a ignorância". Certamente o novo é capaz de nos impressionar: um ônibus espacial, o jogo mais recente de computador, a fralda mais macia. Até amanhã, até que o novo se torne velho, até que a maravilha de ontem seja descartada ou tomada como coisa certa. Não é de admirar que o rabino Heschel tenha concluído: "A medida que a civilização avança, o senso de assombro declina".

Ficamos tão preocupados conosco, com as palavras que falamos e com os planos e projetos que concebemos, que nos tornamos imunes à glória da criação. Mal notamos a nuvem que passa sobre a lua ou as gotas de orvalho nas folhas da roseira. O gelo cobrindo o lago vem e vai. As amoras silvestres amadurecem e murcham. A graúna faz seu ninho do lado de fora da nossa janela e não a vemos. Evitamos o frio e o calor. Refrigeramos a nós mesmos no verão e sepultamo-nos debaixo de plástico no inverno. Rastelamos cada folha assim que ela cai. Estamos tão acostumados a comprar carne, aves e peixe pré-embalados no supermercado que nunca paramos para pensar sobre a liberalidade da criação de Deus. Tornamo-nos complacentes, vivendo vida prática. Perdemos a experiência do assombro, da reverência e da maravilha.[1]

Nosso mundo é saturado com graça, e a presença furtiva de Deus é revelada não apenas no espírito mas na matéria — num gamo que atravessa aos saltos uma campina, no vôo de uma águia, no fogo e na água, num arco-íris após uma tempestade, numa corsa gentil correndo pela floresta, na nona sinfonia de Beethoven, numa criança lambendo um sorvete de chocolate, no cabelo ao vento de uma mulher. Deus queria que descobríssemos sua presença amorosa no mundo a nosso redor.

Por muitos séculos a Igreja Celta da Irlanda foi poupada do dualismo grego entre matéria e espírito. Eles olhavam o mundo com a visão límpida da fé. Quando um jovem monge celta ( religioso da época, pois viviam em mosteiros) via seu gato apanhando um salmão que nadava em água rasa ele exclamava: "O poder do Senhor está na pata do gato". As crônicas celtas contam dos errantes monges marinheiros do Atlântico, que viam os anjos de Deus e ouviam a canção que entoavam enquanto erguiam-se e mergulhavam acima das ilhas ocidentais. Para a pessoa científica tratavam-se meramente de gaivotas, pelicanos, papagaios-do-mar, cormorões e gaivotas-tridáctilas. Os monges, porém, viviam num mundo em que para eles tudo era uma palavra de Deus, no qual o amor divino era manifesto a qualquer um com a menor capacidade criativa. De que outra forma, pensavam eles, Deus falaria com eles? Abraçavam as Escrituras mas abraçavam também a revelação em andamento de Deus em seu mundo de graça. "A natureza irrompe pelos olhos de um gato", diziam eles.[2]

Para os olhos da fé, cada coisa criada manifesta a graça e a providência de Abba (Palavra aramaica para "pai" vide Marcos 14:36).

Com tanta freqüência nós religiosos andamos entre a beleza e a liberalidade da natureza, e o fazemos sem pausar para refletir. Perdemos o panorama de cor e dom e cheiro. Faria pouca diferença se nos mantivéssemos dentro de nossas enclausuradas e artificialmente iluminadas salas de estar. As lições da natureza são perdidas e a oportunidade de mergulhar em silencioso assombro diante do Deus dá criação passa. Deixamos de ter nossos horizontes abertos pela magnificência de um mundo saturado de graça. A criação não acalma nossos espíritos, não restaura nossa perspectiva e não provê deleite a cada porção do nosso ser.[3] Em vez disso, ela nos traz à lembrança as tarefas mais mundanas: mudar a página do calendário ou mandar comprar pneus novos. Precisamos redescobrir o evangelho da graça e o mundo da graça.

Pois "a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo" abrem-nos para o divino espalhado em todo lugar a nosso redor, especialmente na vida de uma pessoa afetuosa.

Viver pelo evangelho da graça nos conduz ao que Teilhard de Chardin chama de "a redondeza divina" — um universo repleto de Deus e permeado de Cristo, um mundo carregado com a grandeza de Deus. De que forma vivemos na presença do Deus vivo? Em assombro, maravilhados pelos rastros de Deus a nosso redor.

Seremos um dia capazes de compreender o mistério da graça, o furioso amor de Deus, o mundo de graça em que vivemos? Jesus Cristo é o escândalo de Deus (em relação aos sentimentos religiosos). Quando o Batista é aprisionado por Herodes, ele envia uma dupla de seus seguidores para perguntar a Jesus: "Es tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?" Jesus diz: "Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim" (grifo do autor).

Fonte : Livro o Evangélio Maltrapilho. Adaptação Cadu Rinaldi.

Nota : Assombro =  (1. Grande pasmo ou espanto. 2. Susto, terror. 3. Maravilha, portento).


[1] Joan PULS. A spiritualitiy of compassion. Mystic: Twenty-Third Publications, 1988, p. 119,20.

[2] Sean Caulfield. The God of ordinary people. Kansas City; Sheed and Ward, 1988, p. 50.

[3] Joon PULS.Op. cit.,p. 120.

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Teologia e Reino de Deus
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Uma resposta para O evangelho da graça e o mundo da graça.

  1. MSilva disse:

    Opa, gostaria de te convidar para participar de uma rede de conteúdo, se tiver interesse me adiciona no msn smatosjr@gmail.com ou me manda um email. Abraços Junior

    Curtir

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