Cartas Católicas


Além das treze epístolas atribuídas a Paulo, o NT contém ainda oito epístolas que não são atribuídas a Paulo. Dos manuscritos por nós conhecidos, um deles traz como título «aos hebreus» e, assim, foi identificada na colecção da Igreja pelo nome daqueles a quem era dirigido, tal como aconteceu às treze epístolas paulinas.

Para além da Carta aos Hebreus há as Cartas Católicas. A partir do séc. IV, esta designação genérica foi reservada para as setes cartas canónicas, a saber: Tiago, 1ª de Pedro, 2ª de Pedro, 1ª de João, 2ª de João, 3ª de João e Judas. O primeiro a falar deste conjunto como as sete cartas católicas foi Eusébio

A palavra «católico» (gr. Katholikós) significa «universal». Daí que a origem do nome destas cartas esteja relacionado com este significado uma vez que estas eram dirigidas a toda a Igreja e não a comunidades ou pessoas concretas (excepto a 2ª e 3ª de João).

Nem os autores, nem os destinatários, nem os temas tratados, nem a forma literária justificam que estas cartas formem um conjunto. Agrupam-se pelo simples facto de não serem escritos paulinos. O conteúdo destas cartas passa pelo cuidado a ter com os falsos mestres, a necessidade de guardar a integridade da fé, a exortação à fidelidade na perseguição e a proximidade dos fins dos tempos. Estas temáticas denunciam uma época relativamente tardia, em que estes problemas eram os mais prementes, devido ao aparecimento das primeiras heresias cristológicas e algumas perseguições. (Cf. Introdução às Cartas Católicas, in Bíblia Sagrada, difusora bíblica).

São Tiago (+/- 60) – Pôr a Palavra em prática «Mas tendes de a pôr em prática e não apenas ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos…» (1, 22-25) porque a fé se «não tiver obras, está completamente morta» (2, 14-18).

A interligação entre estas duas frases resume claramente a ideia principal desta carta que, de uma forma muito prática sublinha a necessidade de pôr em prática a Palavra de Deus. Não basta ouvi-la é preciso pô-la em prática. Porque só quem põe em prática o Evangelho é que «encontrará a felicidade» (1, 25b). Depois de sublinhar esta ideia, a carta irá concretizar este ‘pôr em prática’: «visitar os órfãos e às viúvas e não se deixar contaminar pelo mundo» (1, 27b); não fazer «acepção de pessoas» (2, 1 ss.); dominar a língua (3, 6-10); não ter inveja (4, 2 ss.); evitar a presunção (4, 13-17); pagar o salário justo (5, 4-6); não fazer juramentos (5, 12). Eis a razão do autor desta carta insistir que não é possível haver fé quando não há obras, porque a fé sem obras é morta. A única possibilidade de testemunhar a nossa fé é através das nossas obras. As palavras dizem muito pouco da nossa fé… por isso se diz que ‘as palavras movem e os exemplos arrastam’.

São Pedro (67/80-90) – Em tempo de perseguição – perseverança. Nestas duas cartas não é tão fácil encontrar uma só ideia aglutinadora. Há vários elementos que se sublinham, contudo, fica claro que o contexto é das primeiras perseguições aos cristãos.

A primeira carta depois de uma pequena exortação à santidade fala dos cristãos perante o mundo, apelando ao comportamento exemplar por parte dos cristãos (1 Pe. 2, 12). Neste contexto há um apelo forte à obediência às autoridades – «actuai como homens livres, não como aqueles que fazem da liberdade um pretexto para a maldade, mas como servos de Deus. Respeitai a todos, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei» (1 Pe. 2, 16-17). Em tempo de perseguição, diz o autor da carta – «alegrai-vos (…) se sois ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurado sois vós, porque o espírito da glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vós» (1 Pe. 4, 13-14).

A segunda carta vai chamar a atenção para a necessidade de denunciar os falsos mestres apelando à perseverança, dizendo: «deveis pôr todo o empenho em juntar à vossa fé a virtude; à virtude o conhecimento; ao conhecimento a temperança; à temperança a paciência; à paciência a piedade; à piedade o amor aos irmãos; e ao amor aos irmãos a caridade. Se tiverdes estas virtudes e elas forem crescendo em vós, não ficareis inactivos nem estéreis, relativamente ao conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo». (2 Pe. 1, 5-8).

São João (fim do séc. I) – Deus é Amor «Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor» (4, 7-21). Eis-nos perante um dos capítulos mais profundos e importantes do NT – capítulo 4 da 1ª de João. Primeiro insiste que foi Deus que nos amou em primeiro lugar (não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou… 4, 10). Em segundo lugar fala da necessidade de nós correspondermos a esse amor amando os irmãos (se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros… 4, 11). Neste sentido, conclui que: «se alguém disser – ‘eu amo a Deus’, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (4, 20).

Por tudo isto, a carta de João afirma categoricamente que «Aquele que não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor» (4, 8); mais adiante retoma esta ideia dizendo que «Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele» (4, 16b). Tudo muito bonito mas… e aqueles que nunca foram amados?! Eis a profundidade do amor de Deus – todos são amados por Deus. Mesmo quando alguém é abandonado por todos há Alguém que nunca o abandonará e nunca o deixará de amar – Deus… porque Deus é amor. O Amor é a única chave que nos deixará compreender a Escritura, particularmente o NT. Podemos saber muitas coisas, muitas datas, muitos nomes, muita «doutrina»… mas enquanto não compreendermos que Deus é – apenas e só – amor, então não teremos compreendido nada.

E numa relação de amor não pode haver temor, porque o temor pressupõe castigo e Deus não castiga – ama (cf. 4, 18). Às vezes, diante das dificuldades, das doenças e dos problemas estas palavras parecem não fazer sentido, podemos mesmo julgá-las ofensivas… Mas esta é a mensagem que Jesus trouxe ao mundo.

São Judas (+/- 80) – Cuidado com os falsos mestres. A maior parte desta pequena carta dirige-se contra os falsos mestres que se tinham infiltrado nas comunidades. Por isso, o autor da carta afirma que «Estes são os que semeiam divisões, pessoas guiadas pelos seus instintos, pessoas que não têm o Espírito» (19).

Depois faz uma descrição destes falsos mestres, através de imagens – «são nuvens sem água arrastadas pelos ventos; árvores de Outono sem fruto, duas vezes mortas e arrancadas pela raiz; ondas furiosas do mar a cuspir a espuma das suas desvergonhas; astros errantes, para os quais está reservada para sempre a mais tenebrosa escuridão» (12 b-13). Estes falsos mestres são enquadrados num contexto de parusia (do fim dos tempos), eis o sentido das palavras – «lembrai-vos das coisas preditas pelos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando vos diziam: ‘nos últimos tempos haverá uns impostores, que viverão impiamente ao sabor das suas paixões’» (17-18).Deste modo, não só se tornava necessário alertar as comunidades para o aparecimento dos falsos mestres mas também se sublinhava a importância de tratar «com misericórdia aqueles que vacilam» (22).

Fonte Enciclopédia eletrônica wikpedia

Anúncios

Sobre Cadu Rinaldi

Teologia e Reino de Deus
Esse post foi publicado em Cadu Rinaldi e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Cartas Católicas

  1. samuel elias disse:

    Muito bom e edificante este estudo, parabéns ao autor,

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s