Batismo de Jesus segundo evangelho de Marcos.


De acordo com os profetas (1.2s), o mensageiro é enviado para preparar o caminho do Senhor. Como João cumpriu sua missão, Jesus veio. Marcos nada relata sobre o nascimento de Jesus; ele já havia identificado Jesus como o Filho de Deus. Simplesmente diz que "Jesus veio de Nazaré na Galiléia," localizando o cumprimento da promessa de Deus dentro da história. Ele não está simplesmente relatando "verdades espirituais"; esses são eventos ocorridos em épocas e locais determinados. Jesus veio de Nazaré, uma pequena e insignificante cidade da Galiléia (Jo 1.46). Fe­chando seu Evangelho com a referência a "Jesus de Nazaré" (16.6), Marcos mostra a coesão de sua narrativa. Ao mesmo tempo ele identifica o Jesus ressurreto com o humilde servo de Deus da Galiléia.

Jesus faz a viagem, de cerca de 160 km, com o propósito específico de ser batizado por João no rio Jordão. Considerando os contrastes entre João e Jesus (vv. 2-8), parece estranho que Jesus, que batizará com o Espírito, busque o batismo para si.

Mais estranho ainda é o fato de Jesus submeter-se ao "batismo de arrependimento para remissão de pecados"(1.4). Deveriam os leitores con­cluir que Jesus, como os outros batizados por João, fosse um pecador arrependido? Impossível, pois lemos no prólogo que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus (v. 1), o Prometido (vs. 2, 3), o doador do Espírito (v. 8). Além dessas evidências, Deus mesmo e o seu Espírito celebram o batismo de Jesus, testemunhando sua singularidade. De acordo com essas evidên­cias, Jesus não é um pecador, mas o amado Filho com quem o Pai se alegra (v.11).

Jesus, o Único que batiza com o Espírito, é batizado nas águas. Exatamente como João está posicionado entre a velha e a nova aliança, Je­sus é o intermediário entre Deus e os homens, representando um diante do outro. Como homem, ele toma para si o julgamento de Deus em relação ao pecado — ou seja, julgamento sobre os pecados de outros, pois ele mesmo não tem pecado (cf. 2 Co 5.21). Pelo seu batismo, então, Jesus dá o primeiro passo para identificar-se com os pecadores. Ele irá mostrar sua solida­riedade com a humanidade de outras maneiras conforme a história relata.

Quando Jesus sai da água, ele vê o céu abrir-se, e percebe que Deus constrói uma ponte sobre o abismo que separa terra e céu. Essa deve ser a resposta ao desejo do profeta pela salvação de Israel, no qual apela a Deus para "se fendessem os céus e descesses" (Is 64.1; ver "rasgar-se."em Mc 15.38).

O princípio do Evangelho (1.1) remete-nos ao princípio da criação (Gn 1.1s), quando o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. O Espírito vem sobre Jesus, no princípio da nova criação, como uma pomba que desce, paira e pousa. Ele não somente paira sobre Jesus, mas vem para pousar permanentemente nele (cf. Is 11.2; 61.1 e Lc 4.18; Jo 1.32-34).

Em contraste com as referências sobre o Espírito vindo sobre líderes do Antigo Testamento, Marcos diz que o Espírito entra (eis) em Jesus.

Como Filho de Deus, cheio do Espírito, e guiado pelo Espírito, Jesus age com a autoridade e o poder de Deus. Tudo o que se segue deve ser entendido no contexto de Jesus completamente guiado pelo e cheio do Espírito. Suas palavras e seus feitos apresentam exemplos concretos do que significa viver sob a direção do Espírito.

A simplicidade da narrativa de Marcos sobressai em marcante con­traste com os majestosos eventos descritos. Uma voz dos céus diz: "Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo". Deus, cuja voz tinha estado calada por séculos, fala a Jesus, seu Filho, em tom de intimidade familiar, no qual expressa sua completa e irrestrita aprovação. Seu pronunciamento acena para várias passagens da Escritura de modo a enriquecer seu significado original. "Tu és meu Filho" nos lembra o Salmo 2.7, inicialmente falado aos reis de Israel. "Meu Filho amado" reflete as instruções de Deus a Abraão: "Tome seu filho, seu único filho Isaque, a quem você ama" (Gn 22.2; Mc 9.7; 12.6). No pensamento judaico, o sacrifício de Isaque era entendido como a base para o oferecimento de sacrifícios no templo em Jerusalém.

Além disso, as palavras de Deus a Jesus lembram Isaías 42.1. "Eis o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem se compraz a minha alma; pus o meu Espírito sobre ele; ele trará justiça às nações". A alusão a Jesus, Filho de Deus, como rei é coerente; mas os reis não são ser­vos nem servis. Esse paradoxo, entretanto, forma o âmago do evangelho, uma ironia que confunde aqueles que acompanham Jesus durante sua vida, e continua a ser um bloqueio ainda hoje. Por meio dessa combinação de textos (Sl 2.7 e Is 42.1), porém, aprendemos que "Jesus é designado como Messias-Rei cuja tarefa é radicalmente reinterpretada em termos da missão do Servo sofredor de Deus".[1]

A frase "Tu és meu Filho" descreve mais do que somente os feitos de Jesus; refere-se principalmente ao seu ser. O papel de Jesus como Servo Sofredor tem significado remidor por causa de quem Jesus é em relação a Deus. Ele é o Filho de Deus; seus feitos, suas palavras e autoridade vêm de sua unidade com o Pai. Nós conhecemos Deus, o Pai, por intermédio de seu Filho. Deus, que por séculos não se revelava, agora fala, expressando sua apreciação por Jesus, seu Filho.

A aprovação do batismo de Jesus, sinaliza que ele é o filho obediente que se identifica com os pecadores, cuja expressão maior será a cruz. Mas Jesus também está destinado a reinar. Ele é o Servo Sofredor, ungido pelo Espírito e escolhido pelo Pai, que gover­nará como Servo do Senhor.

Jesus experimenta as três coisas que, de acordo com a tradição judai­ca, poderiam sinalizar o surgimento do reino escatológico de Deus: os céus se abrem, o Espírito vem sobre ele, e uma voz do céu fala com ele. A ocorrência desses três eventos em seu batismo indica que o reino está pró­ximo (cf. 1.14s), com Jesus como seu inaugurador.

Embora Jesus tenha sido batizado na presença de muitas pessoas, Marcos sugere que somente Deus o Pai, o Filho, e o Espírito Santo eram conhecedores do que realmente ocorreu naquela ocasião. Para as pessoas presentes no seu batismo, a identidade de Jesus permanece um segredo a ser desvendado a partir do momento em que seu ministério se manifestar. Paradoxalmente, ele revelará que é o Filho de Deus por meio de sua fraqueza, que culminará com sua Crucificação. Nesse ínterim, Ele perma­nece incógnito como Filho de Deus.

Nesses primeiros versículos, o narrador nos dá informações valiosas, que nos capacitarão a entender aquilo que os primeiros discípulos só compreenderam com muita dificuldade.


[1] Anderson, 79.

Livro: Série cultura bíblica-Marcos. Autor Dewey M. M.

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Teologia e Reino de Deus
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